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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Da confiança à crise dos Bancos (55)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Desde o início da década de setenta do século XX, os bancos comerciais portugueses viram crescer o volume de depósitos. Aconteceu que desde o mês de agosto de 1970 a agosto de 1971, os depósitos passaram de 102,44 biliões de escudos para 122,18 biliões, correspondendo a um aumento de 19,8 por cento. As fontes da altura revelaram que o aumento se deveu, em grande parte, às remessas dos emigrantes portugueses. Também o volume de crédito concedido pelos Bancos durante aquele perído passou de 83,90 biliões de escudos para 96,98 biliões, a que corresponde uma taxa de 15,6 por cento. Tendo em conta o desenvolvimento então verificado nos depósitos, os bancos comerciais aumentaram o volume de créditos, apesar da política restritiva do Banco de Portugal.
Naquele desenvolvimento integra-se, naturalmente, a ação do Banco Totta & Açores – o Banco da Madeira no que respeita à economia da Região. Relevante foi a intervenção de Vilhena de Andrade, Subdirector daquele banco, na conferência proferida no dia 28 de julho de 1971 no Skal Clube da Madeira:
“A Madeira, como é do conhecimento geral, está a atravessar um momento de desenvolvimento no campo turístico, desenvolvimento este que desejávamos há muito tempo realizado, mas que, por um conjunto de circunstâncias, que não interessa frisar nesta altura, pois são problemas sobejamente fossilizados, só agora é que sentimos, constando realmente, essa explosão (…) até à presente data, o défice da balança comercial madeirense tem sido coberto elas divisas provenientes dos emigrantes cujo valor ascende, anualmente,  a algumas centenas de milhar de contos (…) a acção da Banca não fica por aqui, estende-se às actividades que, indirectamente, fazem parte do chamado «ciclo turístico», e, neste caso também, ampara todas as organizações já existentes ou que se estabelecem, tendentes, não só a abastecerem as unidades hoteleiras, como também para venda do nosso artesanato e outros produtos, tanto na região, como também de importação  exterior (…) a Banca está no bom caminho, alguns organismos como a Delegação de Turismo, também, pois disso tem dado bastas provas, porém outros há que se devem actualizar”.

Em 4 de março de 1974, o Banco Totta & Açores e mais oito Bancos subscreveram o Aviso Importante, onde referem:
“Avisamos os nossos Exmos. Clientes que, a partir de 4 de Março de 1974, impreterivelmente, todas as letras descontadas deverão ser liquidadas até 48 horas depois do dia do vencimento, em conformidade com as disposições legais aplicáveis. (Convenção Internacional aprovada e ratificada pelos Decretos Lei Nº 23 721 de 29/3/34 e Nº 26 556 de 30/4/36)”

Com o «25 de Abril de 1974» e a nacionalização da Banca em março do ano seguinte, o Banco Totta & Açores viu-se envolvido no período de instabilidade política. Na Madeira, os separatistas, ao pretenderem transformar o Banco Totta & Açores – Banco da Madeira em banco exclusivamente regional e emissor da moeda “Zarco”, promoveram em 29 de setembro de 1975 o arranque do letreiro desta instituição de crédito. Uma enorme multidão, no Largo do Chafariz, observava Consuelo Santos com um martelo, em cima de uma escada, a arrancar a “indesejável” palavra “Totta”. No fim da operação, apenas sobrou a designação de “Banco da Madeira & Açores”. Os últimos dois dias daquele mês foram de grande e complexa efervescência naquele Banco. A comissão de saneamento, vinda de Lisboa, não teve vida fácil nas mãos do “núcleo separatista” dos bancários do Totta, exigindo o seu imediato regresso a Lisboa.

 (continua)

domingo, 12 de fevereiro de 2017


Da confiança à crise dos Bancos (54)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Por iciativa de Rui Aragão de Freitas, Diretor Regional do Banco Totta & Açores, verificou-se a sua expansão ao abrir, em 1970, um escritório de representação em Caracas, tendo ficado à frente um trabalhador do banco na Madeira, e um escritório em Londres. Esta iniciativa resultou do facto de o Banco da Madeira ter mantido as suas caraterísticas regionais e ainda autonomia administrativa.
Em julho de 1972, Rui Aragão de Freitas deixou o Banco Totta & Açores, passando para a direção de outro Banco e de uma empresa turística, foi nomeado Diretor Regional das Ilhas do Banco Totta & Açores o Dr. Caetano de Lencastre. Como gerente de zona, ficou Manuel José Morna de Freitas. Nova dinâmica foi imprimida na gestão do Banco Totta & Açores, não só evoluindo com a abertura de diversos balcões na Madeira, incluindo um no Aeroporto de Santa Catarina, mas também na reorganização dos serviços com meios técnicos e com uma forte aposta na formação do seu pessoal. As melhorias imprimidas tiveram em vista mais rentabilidade dos recursos humanos para melhor servir os seus clientes e angariar outros.

Quando em 1995 o Banco da Madeira, nas suas sucessivas incorporações, fez 75 anos de existência, o Banco Totta & Açores publicou um importante historial desde 1920, bastante revelador dos momentos de êxito e desventuras por que passou o Banco instituído na Madeira. Uma das facetas desenvolvidas desde há muitos anos foi a da formação profissional do seu pessoal, “no correcto pressuposto de que só empregados devidamente preparados e consciencializados para a missão que lhes está destinada, podem contribuir para o êxito da empresa (…) depois de admitidos ao serviço, os novos empregados do Banco eram iniciados, nas suas tarefas, pelas chefias e colegas mais antigos, transitando depois pelos diferentes serviços, por forma a possuírem uma formação bancária global susceptível de lhes propocionar  polivalência global (…) teve lugar, nas instalações do Banco da Madeira, o primeiro curso de «management» levado a efeito nesta Região e nele participaram os elementos da direcção e chefias. Orientou esta importante acção o Dr. Raul Caldeira, Director do Pessoal do BTA e, na altura, também Presidente da Associação Europeia de Directores de Pessoal”.
Para além da deslocação de elementos da gestão à sede do Banco para realizarem estágios, a formação permanente tornou-se realidade quotidiana com cursos de inglês e de alemão com monitores da sede do BTA. “A Biblioteca especializada, ao dispor dos empregados do Banco da Madeira, constituía um manancial onde se podia colher muitos conhecimentos e informação”.

O convívio, desporto e lazer constituiu uma faceta importante da atividade do Banco da Madeira, que se expandiram para as sucessivas incorporações. “Desde os primórdios da sua existência, o Banco da Madeira fomentou passeios pela Ilha, frequentes jantares e reuniões de confraternização e outras iniciativas visando a aproximação entre todos os elementos do seu pessoal, num esforço para melhorar a comunicação e estreitar relações”. Sem esmorecer nas atividades, acaba por ser criado o Grupo Desportivo do Banco da Madeira, em 29 de março de 1956, sendo mais tarde eleita a sua primeira Direção presidida por Rui Aragão de Freitas, fazendo parte Manuel Vilhena Andrade, Silvio Silva, José Figueira e Carlos Alberto Teixeira. Ao longo dos anos, o Grupo Desportivo foi desenvolvido com a colaboração de Franklim Lopes, Cruz Gouveia, Rogério Abreu, Jacinto Vasconcellos, Nelson Câmara, Renato Abreu, Alberto Andrade...


(continua)

domingo, 5 de fevereiro de 2017



Da confiança à crise dos Bancos (53)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Ganha a batalha de manter o nome Banco da Madeira associado ao Banco Lisboa & Açores, após a sua fusão neste Banco, nova mudança ocorre quando, em 1970, dá-se a fusão entre o Banco Totta-Aliança e o Banco Lisboa & Açores, originando o Banco Totta & Açores.
- O Banco Totta-Aliança, fundado em 1961,  resultou da fusão do Banco Aliança, fundado em 1863, com a evolução de algumas Casas Bancárias, sendo a mais recuada no tempo a Casa Bancária de Fortunato Chamiço, estabelecida em 1843 por Fortunato Chamiço Júnior, seguindo-se: a Casa Bancária de José Henriques Totta, fundada em 1893; José Henriques Totta & Companhia, fundada em 1911, com Alfredo da Silva;  José Henriques Totta, Lda, fundada em 1921; Banco José Henriques Totta, fundado em 1953, com D. Manoel de Mello.
- O Banco Lisboa & Açores foi fundado em 22 de março de 1875 por um grupo financeiro de Lisboa e dos Açores, com o capital social inicial de 5.000 contos, com sucessivas emissões, sendo metade apenas em 1889, embora incompleto. Por diversos anos o capital foi aumentado até atingir 200.000 contos em 1964 e, finalmente, 250.000 contos em 1968.
Foram fundadores deste Banco 11 entidades, algumas individualmente e outras como sociedades comerciais: António Gomes Brandão - Conde de Carregoso, António Joaquim de Oliveira, A. J. Gomes Neto -Visconde dos Olivais, Bensaúde & Cª, Ernesto George, José Estêvão Brochado, Joaquim Pinto Leite, Joaquim Bessa de Carvalho, Lima Mayer & Filhos, Manuel José Dias Monteiro & Filhos e Moura Borges & Cª.
A primeira Direção do Banco foi constituída por: José Estêvão Brochado -Presidente, Abraham Bensaúde – para ligação aos Açores, Adolfo Lima Mayer, Estêvão George e Manuel José Dias Monteiro.

Em janeiro de 1970, o Grupo CUF adquiriu as ações do Banco Lisboa & Açores “necessárias e suficientes para realizar a fusão com o seu Banco Totta-Aliança”. Rui Aragão de Freitas, que ocupava o cargo de Diretor do Banco Lisboa & Açores, foi nomeado para o novel Banco Totta & Açores, com a responsabilidade dos negócios no âmbito da Madeira e Açores. Começa, assim, um novo ciclo na vida do incorporado Banco da Madeira, continuando a marcar uma presença importante na Madeira e evidenciando uma prática qualificada que advém de épocas anteriores.
Já em junho de 1966, ainda como Banco Lisboa & Açores, foi aberta uma agência em Câmara de Lobos, seguindo-se, em outubro do mesmo ano, uma agência na Ribeira Brava e, em janeiro de 1969, uma agência em Machico.
Com a renovação operada com a fusão de 1970, o Banco Totta & Açores passou a pertencer ao grupo dos cinco principais bancos portugueses. No fim de 1970, os capitais próprios atingiam 869 milhões de escudos; os depósitos à ordem e a prazo atingiam cerca de 14 070 milhões de escudos; o crédito subia a mais de 8 455 milhões de escudos; o crédito concedido naquele ano ultrapassou 42 000 milhões de escudos. Naquela época, tinha ao seu serviço cerca de 2 500 trabalhadores em mais de 90 balcões, registando um aumento das suas operações com a principais empresas do País, numa expansão rápida das relações bancárias com empresas industriais e comerciais.
A evolução histórica beneficiou o Banco Totta & Açores na expansão então verificada para o Ultramar, tendo sido fundados dois bancos em África, em colaboração com o Standard Bank: Banco Totta Standard de Angola e o Banco Standard Totta de Moçambique.
(continua)

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domingo, 29 de janeiro de 2017


Da confiança à crise dos Bancos (52)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Nos anos sessenta do século XX, “o Banco da Madeira tinha permanentemente elevados excessos de dólares, os quais era obrigado a vender ao Banco de Portugal em operações que se revelavam obviamente desvantajosas”. Enquanto nas transações de dólares feitas entre o Banco da Madeira e o Banco de Portugal, a diferença entre a compra e a venda daquela moeda era apenas de três centavos, os bancos continentais ganhavam nove centavos porque tinham a possibilidade de vender os dólares no Continente aos seus clientes importadores. O facto de na Madeira haver poucas importações diretamente do estrangeiro, a banca regional estava em desvantagens face aos bancos nacionais.
Com o intuito de ultrapassar a desigualdade ocorrida com a moeda estrangeira, o Banco da Madeira procurou uma solução pela via da fusão propondo-se comprar “um banco de pequena dimensão que operava no Porto e em Lisboa”, o que não aconteceu “por falta de consenso entre as partes interessadas”.

Em 1965, o Capital e Reservas do Banco da Madeira atingia o montante de 46 mil contos. O valor dos depósitos ascendia a 547.133 milhares de contos. O total do ativo era de 858.356 milhares de contos.
 Falhada a hipótese de compra de um pequeno banco, a solução dos grandes acionistas recaíu na venda de um grande lote de ações a um banco de prestígio, o que veio a acontecer com a incorporação do Banco da Madeira no Banco Lisboa & Açores. Teve a favor desta incorporação o facto do Banco Lisboa & Açores ter como presidente do Conselho Fiscal o Comendador Manuel Nunes Corrêa, personalidade que estava muito ligada à Madeira. Mas foram grandes impulsionadores da incorporação: por parte do Banco da Madeira o seu Presidente do Conselho de Administração, Dr. João Figueira de Freitas, e o Administrador, António Bettencourt Sardinha; por parte do Banco Lisboa & Açores, além do já referido Comendador, o Administrador Delegado, Dr. Alexandre Almeida Fernandes, e o membro do Conselho Fiscal, Dr. Francisco Galheiros.

Em junho de 1965, os Administradores do Banco Lisboa & Açores deslocaram-se à Madeira para oficializarem a compra do Banco da Madeira, cujo valor foi de 60.000 contos. Em 7 de dezembro daquele ano a Assembleia Geral aprovou por unanimidade a incorporação, tendo tal decisão sido apresentada ao Ministro das Finanças no dia 21 do mesmo mês. Em 24 de janeiro de 1966, foi lavrado o projeto do acordo entre as Administrações do Banco Lisboa & Açores e do Banco da Madeira para ultimação das formalidades inerentes à operação. Em março de 1966, concluiu-se a fusão por incorporação do Banco da Madeira no Banco Lisboa & Açores e, tendo em vista uma total autonomia, foi mantido o Conselho de Administração, que passou a denominar-se Conselho de Gestão. Este e o Conselho de Administração do Banco Lisboa & Açores promoveram, no Funchal, uma confraternização, para o qual foram convidados todos os clientes do Banco da Madeira, incluindo os residentes no estrangeiro, alguns destes deslocaram-se à Madeira para este efeito.
Apesar da opinião contrária e declarada oposição do Ministério das Finanças, do Banco de Portugal, da Inspeção de Crédito e Seguros e dos juristas do Banco Lisboa & Açores na manutenção do nome Banco da Madeira, associado ao Banco Lisboa & Açores, foram de grande firmeza a posição dos dirigentes do Banco da Madeira (embora já incorporado) em manter associado este nome.
(continua)

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domingo, 22 de janeiro de 2017


Da confiança à crise dos Bancos (51)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Faz parte da história do Banco da Madeira o facto de ter sido o primeiro banco a admitir uma mulher para o seu quadro de pessoal. Apenas os homens eram contratados para trabalhar em instituições financeiras. Mas a 27 de novembro de 1933, Capitolina da Silva Nunes foi “a primeira representante do sexo feminino a ingressar, com apenas 16 anos, no «mundo machista» da banca madeirense”. Com uma carreira bastante profíqua, era “carinhosamente tratada por todos os seus colegas e superiores hierárquicos”, vindo mais tarde a “fixar-se na Secção de Contabilidade, tornando-se uma profissional de reconhecidos méritos, em quem a Administração e chefias depositavam total confiança”.

Numa época em que o turismo da Madeira despontava com o incremento das ligações com o exterior, por via marítima, através de barcos de grande porte a escalarem o Porto do Funchal, proporcionava-se o desenvolvimento do comércio da cidade. O Banco da Madeira beneficiou do fluxo económico da Ilha ao longo dos tempos. Chegado o ano de 1959, o Conselho Fiscal, presidido por Vicente Braz Gonçalves, relevou “os métodos de trabalho, de rígida economia, de probidade sã, de prudência e de compreensão da realidade, que caracterizam a orientação sempre seguida pela Administração, fizeram com que possamos verificar com o maior prazer o elevado grau de prosperidade que alcançou o Banco e a posição de confiança que felizmente disfruta, de que é índice o aumento constante de depósitos que nele vimos notando, ascendendo a 433.274.512$82”.
Cabe ainda na continuada acção do Banco da Madeira o apoio às atividades económicas regionais, nomeadamente “financiar o primeiro navio fruteiro, adquirido na Alemanha pela Empresa de Navegação Madeirense, e já com dimensão ajustada às necessidades de transporte da Ilha”. Outro apoio financeiro destinou-se a “obras de remodelação do Hotel Savoy, na sua fase de construção, visto que o financiamento a longo prazo era feito pelo Governo através de um plano de reactivação do turismo”. O mesmo aconteceu com o apoio dado pelo Banco da Madeira à maior parte dos hotéis que vieram a ser construídos na Madeira.

Tendo em vista servir bem os emigrantes madeirenses e seus familiares, o Banco da Madeira nomeou correspondentes em toda a Ilha, que compravam a moeda estrangeira, sob a forma de cambiais, oriunda das remessas dos emigrantes, o que evitava deslocações ao Funchal para tal efeito. Mais tarde, foram criados serviços móveis (prospectores bancários), com viaturas do Banco que, “diariamente, a hora previamente combinada, visitavam os correspondentes e até mesmo os familiares dos emigrantes, recebendo os depósitos e os esclarecimentos e aconselhamento que os clientes desejassem”.
Em meados da década de sessenta do século XX, na Madeira, o Governo autorizou a abertura de agências de bancos que funcionavam no Continente, tendo-se entrado num regime de concorrência, por vezes muito agressiva, “oferecendo outras compensações sobretudo aos industriais de bordados e demais exportadores e empresas hoteleiras, a fim de que estes lhes vendessem os dólares com que eram pagas as suas mercadorias e serviços”.
As remessas de emigrantes  geravam um excesso de liquidez e, “como todas as operações activas que fossem propostas ao Banco e reunissem as necessárias condições de segurança, eram aprovadas, a solução foi encontrada através de acordos com as grandes instituições bancárias de Lisboa que não tinham agências na Madeira”.

(continua)

domingo, 15 de janeiro de 2017



Da confiança à crise dos Bancos (50)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
A reestruturação do Banco da Madeira, permitida por lei do «Estado Novo» em 1933, contribuiu para a dinâmica financeira nos anos subsequentes. Chegado o ano de 1937, o Conselho de Administração afirma no Relatório e Contas que “este Banco prossegue a sua acção com resultados animadores, se atendermos à crise que esta praça atravessou e cujos efeitos se fazem ainda sentir”, tendo atingido um lucro no exercício de 385.848$55.
No ano de 1938, “manteve-se o lento e cauteloso crescimento, tendo-se verificado a libertação da última prestação da parte dos depósitos comuns do Banco da Madeira e do Banco Sardinha”. Revela um “lucro de 121.222$60 com a exploração da Fábrica de Aguardente de Machico e da liquidação dos negócios da Filial do Banco da Madeira, em Lisboa, depois de ponderadas várias circunstâncias”. Aquele ano ficou marcado pelo falecimento do Administrador Leonel Gonsalves Luíz, tendo sido substituído nas suas funções por Daniel Fernandes de Azevedo e, no ano seguinte, pelo doutor Fernão de Ornelas Gonçalves, que viria a ser presidente da Câmara Municipal do Funchal.
Os anos seguintes foram caraterizados pelo empenhamento da Administração e dos trabalhadores do Banco virado essencialmente para a vertente comercial e para o meio rural na perspetiva regionalista. O Relatório e Contas de 1945 revela que “o Banco começa a desempenhar efectivamente a função que presidiu à sua criação. Somos hoje um importante instrumento propulsor da vida económica local. A nossa situação e o apoio crescente que o comércio nos vem concedendo permite-nos encarar o futuro com confiança”, tendo obtido um lucro no montante de 1.053.909$88.
A Assembleia Geral do dia 6 de janeiro de 1946, presidida pelo doutor Juvenal de Araújo, revelou que a carteira comercial atingiu quase 20 mil contos e o valor dos depósitos ascendeu a cerca de 35 mil contos. Estes valores constituíram dois fatores positivos para o Conselho de Administração revelar que “Podemos hoje afirmar-vos - e fazemo-lo com incontida satisfação – que o vosso Banco está definitivamente consolidado. Assim atingiu-se a primeira grande meta da nossa vida”.
Quando, no fim da década de quarenta, o doutor Fernão de Ornelas Gonçalves deixou a Madeira e fixou-se no Continente, vendeu as suas ações que detinha do Banco da Madeira ao doutor João Figueira de Freitas, que era presidente do Conselho Fiscal, tendo este deixado essas funções para, na qualidade de acionista maioritário, assumir a Presidência do Conselho de Administração do Banco.
Nessa altura a crise da Madeira ia desvanecendo e as atividades económicas evoluíam com intensidade, de um modo especial a exportação para diversos mercados: bordados, obra de vime, vinho, banana e diversos produtos hortícolas. A safra da indústria do açúcar era totalmente financiada pelo Banco da Madeira que tinha a oportunidade de também colaborar com os agricultores “quando estes ao balcão desta instituição de crédito, recebiam o pagamento da cana do açúcar e efectuavam os seus depósitos”. A emigração retomou o ritmo histórico e as remessas dos emigrantes enviadas para a Madeira em moeda estrangeira “eram convertidas em escudos e depositadas a prazo no Banco da Madeira”.


(continua)
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domingo, 8 de janeiro de 2017

Da confiança à crise dos Bancos (49)

DO «BANCO DA MADEIRA» (1920) AO «BANCO SANTANDER TOTTA»
Pese embora fosse oficialmente reconhecida a crise económica e financeira vivida na Madeira ao longo da década de vinte do século passado, o texto preambular do Decreto-lei nº 23026, de 12 de setembro de 1933, que decidiu a fusão do Banco Sardinha e da Casa Bancária Rodrigues, Irmãos & Cª, no Banco da Madeira, constitui uma severa crítica à gestão do sistema financeiro regional. Começa por referir:
“A vaga depressiva que tam fundamente atingiu os valores e réditos da Ilha da Madeira, menos protegida do reflexo dos factores de desequilíbrio económico mundial que o continente, teve a agravá-la, desde o início, forte contracção do sistema do crédito local. Era este um agregado desconexo, sem consistente base económica e técnica, quási improvisado na maré optimista dos negócios, propenso aos abusos e indefensáveis facilidades, sujeito a erros geralmente cometidos e não isento também de desacertos e ilusões que na Ilha adquiriram relêvo invulgar. Uns cavaram a sua ruína, outros apressaram-lhe a queda, perdendo-se, sem remissão, alguns organismos bancários, de que há apenas a fazer o salvamento de destroços nas condições que o tempo e o mercado ditarem”. A seguir, o preâmbulo justifica tacitamente a fusão decidida no diploma legal, afirmando:
“ Existem porém estabelecimentos de crédito – como o Banco da Madeira e o Banco Sardinha – que têm sofrido mais da desconfiança geral e das consequências dos erros alheios do que pago os resultados das próprias faltas. Têm eles condições de vitalidade que tornam defensável a cooperação financeira do Estado, cooperação de que pode resultar a sua reorganização e regresso à função até há pouco desempenhada na economia madeirense”. Como justificação económica nacional prossegue:
“A intervenção do Poder em domínio que parece reservado às actividades particulares, além de uniformemente aconselhado pelos que com responsabilidade fizeram o exame da situação, deriva como imperativo dos considerandos de economia nacional, os mesmos que conduziram a igual procedimento em casos semelhantes a este. Naturalmente a assistência governativa aos bancos vai sujeita a condições, julgadas imprescindíveis, de prudência e de administração. Aproveita-se a oportunidade de criar um estabelecimento regional de crédito, suficientemente poderoso e sólido para dar à economia do arquipélago apoio sério, substituindo-se a dispersão de esforços por pequenas e médias casas, que, seja qual for a honestidade dos seus processos de trabalho, pouco podem representar. Se, nas condições previstas neste decreto, chega a constituir-se o novo Banco da Madeira,  com a fusão do Banco Sardinha e do Banco da Madeira em regime especial de moratória, e ainda da casa Rodrigues, Irmãos & cª, deve ficar saneado o meio bancário madeirense e o crédito voltar a dispor da expansabilidade precisa, utilizando o dinheiro fresco entrado, liquefazendo os créditos congelados, atenuando o entesouramento internacional e permitindo o regresso à confiança, sem a qual organismos desta classe não podem viver sem prosperar”.

Com a condescendência política e depois legal de Salazar, o novo Banco da Madeira prosseguiu a sua função com um capital social de 10.085.500$00, assinalado nas suas contas de 1934, e uma carteira comercial de 11.144.173$78 e um total de depósitos de 12.104.861$71, tendo obtido um lucro de 177.910$67.


(continua)