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segunda-feira, 28 de junho de 2021

 

               Conflitos das Autonomias da Madeira (37)

A implantação do regime republicano permitiu a Sidónio Pais aceder e acumular outros cargos para além da docência, numa primeira fase e, depois, uma via política. Ascende a presidente da Comissão Municipal de Coimbra e, no final de 1910, pela mão de Brito Camacho, pertence ao Conselho de Administração dos Caminhos-de-Ferro, abandonando a municipalidade de Coimbra. A 23 de outubro de 1910 são nomeados Manuel de Arriaga e Sidónio Pais para os cargos de reitor e vice-reitor da Universidade de Coimbra.

Numa conjuntura de grande agitação política e estudantil, com a invasão das aulas e perseguição de lentes tidos como franquistas e reacionários, foi necessário lançar as bases da exigida reforma da Universidade. Foi com Manuel Arriaga e Sidónio Pais que foram promulgados quatro emblemáticos decretos da desejada nova academia, tendo sido abolido o juramento de lentes e alunos, nomeadamente o juramento da Imaculada Conceição; as matrículas no 1º Ano de Teologia foram anuladas, foi abolida a obrigatoriedade do uso de capa e batina e foram extintos os privilégios dos «Velhos Estatutos». Os cursos das Faculdades foram tornados livres, sem marcação de faltas, o que traduzia uma modernização da conceção do ensino superior.

“Em fevereiro de 1911, Sidónio Pais faz a sua iniciação maçónica em Coimbra, na Loja Estrela de Alva do REAA-Rito Escocês Antigo e Aceite, escolhendo o nome simbólico de Carlyle (1795-1881), historiador, crítico da sociedade e filósofo escocês. Muito se tem dito sobre esta escolha, aventando-se a hipótese do trabalho de Carlyle, nomeadamente o texto ON Heroes (…) ter tido influência sobre Sidónio Pais. Ou seja, ter moldado a sua maneira de encarar o processo histórico e o papel central que nele tinham os heróis, nomeadamente o «rei». A sua iniciação pode significar a necessidade de legitimação política, face a outros republicanos, também maçónicos, mas mais activos politicamente ou mesmo «revolucionários».

Novas oportunidades levam Sidónio Pais a abandonar Coimbra. Em Maio de 1911 é eleito deputado à Assembleia Nacional Constituinte pelo círculo nº 15, Aveiro. Sidónio Pais não se distinguiu como tribuno, nem teve intervenções extensas e inspiradas. Foi, portanto, um deputado participativo mas discreto, que alinhava com o republicanismo moderado de Brito Camacho, que viria a ser o chefe do Partido Unionista. Defendeu a existência de duas câmaras e recusou a ideia de um Senado «corporativo», temendo que este se tornasse conservador.

Através da influência de Brito Camacho, Sidónio Pais faria parte do primeiro elenco governativo, presidido por João Chagas. O político unionista explicou porque é que pugnara pela colocação do seu correligionário na pasta que ocupara no Governo Provisório: «Unicamente por ser meu amigo? Não; porque sendo S. Exª. uma inteligência superior e superiormente culta, e ao mesmo tempo um nobre carácter, tinha a certeza de que havia de adoptar; do que eu fizera, aquilo que achasse bom, e havia de corrigir com superiores vantagens aquilo que achasse mau».

Sidónio Pais ocupou, assim, a pasta do Fomento, no I Governo Constitucional, presidido por João Chagas. Era constituído por republicanos moderados que tinham sobre os ombros a tarefa de «consolidar a República». Tratava-se, portanto, de um gabinete do qual muito se esperava. A conjuntura política, (…), não permitiu que os projectos gizados fossem levados a bom porto por Sidónio Pais” (Presidentes de Portugal, Museu da Presidência da República, janeiro 2006).

(continua)

domingo, 20 de junho de 2021

 

               Conflitos das Autonomias da Madeira (36)

 

“A luta pela Monarquia tradicional, ordeira e elitista, fá-lo dar aval às ditaduras de Pimenta de Castro (Janeiro-Maio 1915), Sidónio Pais (1917-1918) e mais tarde à Ditadura Militar e ao Governo do Estado Novo de Salazar e a simpatia pelo nazismo.

O empenho na defesa pelos interesses da Madeira continuou no semanário Independência (1928-1929) e ainda na Revista Portuguesa e Ilustração Portuguesa, durante o Estado Novo. O período da Ditadura de Sidónio Pais (Dezembro de 1917 a Dezembro de 1918) proporcionou condições para uma reafirmação das propostas autonomistas para a Madeira. A governação do major Sidónio Pais foi um dilema e equívoco: o chefe era republicano e mação, mas o seu apoio estava nos inimigos da República, isto é, entre os monárquicos e os católicos, que entretanto haviam constituído uma agremiação política, o Centro Católico, cuja figura principal na Madeira era o Dr. Juvenal de Araújo (…).

«”O Sr Sidónio Pais tem falado muito, de norte a sul do país e ainda nada logrou dizer que valha a pena ouvir-se.(…). Está a vida cada vez mais cara, para muitos sendo já incomportável?” [A Época, 7 de Abril de 1918] («História da Madeira», coordenada por Alberto Vieira, setembro 2001).

Sidónio Pais era militar com o posto de major, professor de matemática da Universidade de Coimbra, diplomata e político. Foi ministro do Governo de João Chagas. Com a sua revolução queria “arrumar a casa” e tirar o País de uma situação pouco digna, em relação ao mundo civilizado. Com o nome de «República Nova», Sidónio Pais teria a intenção de criar no País uma outra política governativa, capaz de o redimir de tanta balbúrdia partidária.

Segundo João França (DN -Madeira, 10/12/1993) Sidónio Pais foi “vitorioso após três dias de luta armada, falava o Sidónio à Nação, expondo as suas intenções nestes temos: formação de um Governo sério, honesto, competente, capaz de administrar o País com inteligência e honradez num regime de liberdade e tolerância, no qual todas as classes pudessem viver com dignidade; manter relações internacionais e os compromissos com os países aliados, ficando ao lado deles na guerra contra a Alemanha. Eram essas as linhas mestras da sua República Nova. Homem de inteligência brilhante, tinha o Sidónio um conselheiro amigo e também admirador: o Prof. Egas Moniz. Todavia, nem sempre o revolucionário acatava os conselhos do cientista, por questões de desacordo, principalmente acerca dos processos presidenciais. No seu livro «Um Ano de Política», pode ler-se que o Egas Moniz havia aconselhado a prática do semi-presidencialismo, o que seria contrário ao pensamento do Sidónio Pais, pois, a seu ver, apenas o sistema presidencialista estaria certo num País com a então característica político-partidária, tão desavinda (…).

 Uma das cartas de Egas Moniz a Sidónio Pais salienta: “«Soou a hora de procurar competências que auxiliem a obra tão brilhantemente iniciada em 5 de Dezembro. O sr. Presidente terá, para obter esse fim, de caminhar de completo acordo. São dois poderes autónomos, mas que, sobretudo entre nós, carecem de seguir unidos e ligados nas mesmas intenções e propósitos» E mais adiante: «Vivem muitas vezes os Chefes de Estado separados da verdadeira opinião pública, e a lisonja dos que o servem e um pouco a separação das multidões que só observam de grande altura não deixam ver claro» (…)”.

Contra o presidencialismo sidonista estavam os partidos Democrático, liderado por Afonso Costa; Unionista, de Brito Camacho; Evolucionista, de António José de Almeida.

(continua)

sexta-feira, 11 de junho de 2021

 

               Conflitos das Autonomias da Madeira (35)

A «História da Madeira», coordenada por Alberto Vieira, salienta que “na discussão, ocorrida na Câmara dos Deputados em 19 de Abril de 1912, ficou expressa a opção republicana quanto às disposições especiais que regulavam a administração dos distritos insulares: «Trata-se de manter e sancionar um regime que aqueles distritos gozam (…) que produziu já os seus bons resultados na administração distrital». O Visconde da Ribeira Brava considerava em 1913 que o novo regime era a via desejada para a solução dos problemas da Madeira. Com a República chegou a «hora de fazer justiça à nossa terra (…). Durante vários anos a Madeira foi despojada da quase totalidade dos seus rendimentos, enviando milhares de contos, e não recebendo o mais insignificante melhoramento».

Ele como deputado, vogal da Junta Geral e Presidente da Junta Agrícola, criada em 1911, actuou em benefício e promoção da agricultura. A par disso apostou na protecção à floresta, criando-se em 1913 a polícia rural e florestal.  O plano de actividades completa-se com a abertura de estradas, de que se destaca a via entre o Funchal, Machico e São Vicente.

Para Avelino Quirino de Jesus a reivindicação do alargamento da autonomia da Madeira e Açores passa pelos aspectos financeiros e económicos e não pelos morais e políticos. Esta foi a preocupação do movimento autonomista dos anos vinte que insistiu na valorização do papel da Junta Geral, cuja intervenção nos melhoramentos públicos não se fazia por falta de recursos financeiros. Os avanços autonómicos passavam pelas questões financeiras.

A crise económica derivada da primeira guerra (1914-1918), fez com que despertasse o espírito autonómico insular. A frustração face às esperanças federalistas não assumidas pelos republicanos fez com que a solução fosse de novo orientada pelos sectores monárquicos da sociedade insular. A solução para estas dificuldades passará de novo pelo apelo à descentralização como forma de combater os problemas que afligiam a Madeira. (…).

Nos Açores cresceu o movimento separatista, fruto duma simpatia confessa com os Estados Unidos. Este movimento foi entendido por Brito Camacho, líder do Partido Unionista, como forma de pressão usada pelos açorianos quando pretendiam «fazer alguma imposição à politicagem de Lisboa, ou fosse para lhe não mandar desembargadores, ou fosse para lhe subsidiar estradas».

Os madeirenses acompanharam os açorianos na reclamação de mais autonomia, retorquindo às reclamações dos políticos continentais quanto ao separatismo (…) Nas vésperas do Sidonismo, o Visconde do Porto da Cruz (1890-1962) em artigo intitulado o «Regionalismo», publicado no semanário madeirense O Progresso em 1917 faz notar o subtítulo do semanário («órgão de propaganda da Madeira»), incitando os madeirenses a lutar em prol da defesa dos seus interesses. Na sua óptica, de monárquico integralista declarado, o verdadeiro patriota tinha de ser à partida regionalista e o regionalismo e o patriotismo não se coadunavam com as facções partidárias do regime democrático da 1ª República. Propunha por isso uma luta empenhada contra a concorrência económica dos estrangeiros (ingleses) e contra o espírito estrangeiro de alguns portugueses que haviam copiado modelos políticos estranhos à tradição portuguesa da monarquia absoluta, por cujo regresso suspirava”.

A luta pela Monarquia tradicional avaliza as ditaduras de: Pimenta de Castro (1915), Sidónio Pais (1917-1918), ditadura Militar, Estado Novo e simpatia pelo nazismo.

(continua)

sábado, 5 de junho de 2021

 

               Conflitos das Autonomias da Madeira (34)

A instabilidade vivida a nível nacional teria naturalmente reflexos nas constantes mudanças de Governadores Civis, embora sem mudança no modelo administrativo do Distrito. Apenas houve mudança das personalidades que exerciam o cargo de Governador Civil. Foi a lógica política que sempre funcionou. Não seria desta vez que haveria exceção, pois, logo no dia 6, um telegrama indigitava o Dr. Manuel Augusto Martins para substituir o Governador Civil monárquico, José Ribeiro da Cunha. Com o Governador Civil ausente, quem exercia as funções era o Secretário-Geral, o conselheiro António Jardim de Oliveira que entrou em conversações com o comandante militar, coronel Valeriano José da Silva e com o indigitado Governador Civil, facilitando, assim, a mudança de titular. Ao longo de pouco mais de quinze anos de duração da I República, a Madeira teve trinta Governadores Civis, o que corresponde a dois por ano.

O ideal autonomista continuou vivo ao longo dos anos não se limitando às leis publicadas no tempo da monarquia, nem ficaram esmorecidas face ao querer nacional.  A autonomia foi bastante debatida nos dois arquipélagos, debates que teriam como consequência novas formulações legais futuras. Em 1921-1922-1923, o Poder Central foi profusamente contestado quer nos Açores, quer na Madeira, devido à carga fiscal imposta aos distritos, cujos poderes estavam limitados por tais ónus, sendo ainda afetada a sua vida económica e social. O projeto de autonomia para os Açores em 1921 de Francisco d’Atayde, e as opiniões de editorialistas da imprensa madeirense, no ano seguinte, fizeram eco nas críticas cerradas ao Governo Central de então. Convém também ter em conta que o próprio Presidente da Junta Geral do Funchal, Dr. Fernando Tolentino da Costa, em 9 de novembro de 1922 na sessão de boas-vindas ao Presidente da República, António José de Almeida (vindo do Brasil, fez escala no Funchal), declarou-se formalmente o iniciador de um movimento por uma ampla autonomia.

A Junta Geral do Funchal, na sessão de 3 de novembro de 1922 deliberou dar conhecimento do movimento autonomista às Juntas Gerais de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, a fim de conjugarem esforços nesse sentido. O projeto que o Dr. Pestana Reis apresentou na reunião da Junta Geral do Funchal em 16 de dezembro de 1922 revela bem a força viva dos ideais autonomistas presente na opinião pública açoriana e madeirense daquela época. Com a mesma temática, em 5 de janeiro de 1923 realizou-se um grande debate entre açorianos e madeirenses no Terreiro da Luta.

“A decentralização não aliena a qualidade de português, mas dá à região decentralizada foros de se governar por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades das diversas regiões” (in Verdade, 19/11/1917).

Em «História da Madeira», coordenada por Alberto Vieira, destaca que “Os republicanos quando assumiram o poder limitaram-se a expressar na Constituição de 1911 (Título VI, artigo 30º) a situação já reconhecida para as ilhas desde 1895. A revista dos estatutos dos distritos autónomos foi remetida para o novo código administrativo, que nunca foi aprovado, regulando-se a execução por lei nº 88, de 7 de Agosto de 1913 e as leis nº 621 de 23 de junho de 1916 e nº 1453 de 26 de Julho de 1923. Na primeira lei sobre o funcionamento dos corpos administrativos não transparece qualquer diferença em relação ao sistema de governo dos distritos continentais”.

(continua)

sábado, 29 de maio de 2021

 

               Conflitos das Autonomias da Madeira (33)

O livro «História da Madeira», coordenado por Alberto Vieira, destaca que o “conceito de regionalismo nasceu em França em 1874, sendo de uso corrente desde 1892 e pretende significar um movimento aberto a diversas correntes políticas e culturais e que actua na defesa dos interesses locais”. Mais refere que o Partido Republicano Português “lutara contra o centralismo lisboeta do poder monárquico e as forças vivas da Madeira estavam cada vez mais conscientes de que a solução dos da ilha passavam por uma autonomia administrativa e económica e que o estatuto autonómico de 1901 estava ainda aquém de corresponder a estes anseios.

Proclamada a República, alguns “filhos órfãos lastimosos” da Monarquia começaram a agitar a bandeira do regionalismo, como forma de oposição ao regime republicano e de intervenção na vida política. A 11 de Outubro de 1910, no Diário de Notícias, o Visconde Gonçalves de Freitas (1836-1915), deputado e Par do Reino, pela Madeira, no tempo da Monarquia, foi a primeira voz a surgir a público: “Nem republicanos, nem monárquicos. Nem ultramontanos, nem liberais. Madeirenses só! Porque a época não é própria para as distinções partidárias, mas para um abraço fraternal entre todas as classes sociais. Há grandes interesses a defender e importantes assuntos a discutir”. A necessidade de reunir esforços “puramente e exclusivamente madeirenses” e insurgia-se contra a verba insignificante que o Governo central enviara para fazer face à epidemia da cólera que surgira no Funchal, porque “a Madeira manda anualmente para os cofres do Estado, depois de feitas todas as despesas distritais, centenas de contos de reis”. Concluiu com um apelo ao fervor do debate e reclamação autonomista: “levantar bem alto a voz de forma que Portugal nos atenda e a Europa nos Oiça”.

A resposta veio de um republicano que assina com as iniciais L.O. P. C., que contrapõe o progresso da Madeira em marcha, dizendo que a sua continuidade depende do contributo dos portugueses, madeirenses ou não. São feitas acusações de chauvinismo e má-fé quanto aos impostos, uma vez que a Junta Geral administra muitas das verbas arrecadadas na Madeira, e de descrença e oposição à governação republicana “que não mente como nos mentiram durante três quartos de século, os governos da monarquia, que sempre nos ludibriaram””.

Mais salienta que “Em entrevista ao jornal O Liberal, a 5 de Junho de 1913. o visconde da Ribeira Brava, que se empenhara, já na Monarquia, na defesa dos interesses da Madeira, e que aderira ao PRP em 1908, exprime bem a esperança republicana: “Por várias vezes durante o antigo regime, tentei fazer alguma coisa de bom pela Madeira; reconheci, porém, que seria impossível lutar pelo proveito e capitulei! Mas, logo que vi proclamada a República, entendi que era a hora de fazer justiça à nossa terra. Durante largos anos a Madeira foi despojada da quase totalidade dos seus rendimentos, enviando milhares de contos, e não recebendo o mais insignificante melhoramento (O Liberal, a 5 de Junho de 1913)”.

“Nos últimos anos tomou vulto a ideia autonómica dos açoreanos e dos madeirenses. Não está ainda suficientemente definida no espírito deles, embora as aspirações estejam completas no ardor e unanimidade. Isto concorre para que na metrópole haja suspeitas e oposições apenas fundadas no descontentamento (…) subentende-se talvez o receio de que os madeirenses queiram juntar-se à Inglaterra (…) A. Quirino de Jesus, Autonomia da Madeira e Açores. in A Pátria, 7 de Julho 1923”.

(continua)

domingo, 23 de maio de 2021

 

Conflitos das Autonomias da Madeira (32)

 

Na descrição que o Elucidário Madeirense, Vol. II, faz dos efeitos que a I Guerra Mundial provocou na Madeira “ecoou sinistra e sangrentamente na capital deste arquipélago com o bombardeamento do nosso porto por submarinos alemães, nos dias 3 de Dezembro de 1916 e 12 de Dezembro de 1917. Os submarinos inimigos percorreram com frequência as águas deste arquipélago e as equipagens de muitas embarcações a vapor e à vela, afundadas por eles, vieram procurar a sua salvação nas costas marítimas destas ilhas. Vamos mencionar algumas dessas embarcações, e ainda outras que foram torpedeadas ou assaltadas em viagem para a Madeira, sendo possível que a nossa relação apresente lacunas sensíveis, sobretudo com respeito ao período em que a imprensa se viu forçada a omitir a narrativa de certas ocorrências de guerra.

A escuna Senhora da Conceição foi afundada por um submarino alemão, nas costas da França, mas pertencia à praça do Funchal e trazia um carregamento de enxofre para esta ilha. Tinha sete tripulantes e um praticante de piloto, natural da Madeira, desembarcando todos no porto de Gijon, em Espanha. O torpedeamento deu-se   no mês de Abril de 1916.

No mês de Julho do ano referido, saiu do Funchal , conduzindo um carregamento de vinho com destino a alguns portos do norte da Europa, o vapor dinamarquês Moskow que foi apresado e afundado pelos alemães, tendo a companhia de seguros Alliança Madeirense pago a importância da carga (…) na freguesia da Ribeira Brava desembarcaram a 17 de Julho de 1917 os marinheiros que tripulavam o vapor grego Chalkidon, que fora afundado por submarino a 80 milhas da Madeira, tinha 23 tripulantes de dirigia-se de New-York para Marselha.

A cerca de 150 milhas da ilha do Porto Santo foi metida a pique a barca portuguesa Viajante, que trazia carga geral para a Madeira. Depois de três dias de extenuante viagem, chegou a equipagem desta embarcação ao Funchal a 5 de Outubro, seguindo alguns dias depois para Portugal (…) a 30 de janeiro de 1918 foi torpedeado o pequeno vapor Neptuno (antigo Maria), pertencente à praça do Funchal. Saíra na véspera de Lisboa com destino a esta ilha.

A 30 de Março de 1918, foi afundada a 100 milhas do Porto Santo a escuna portuguesa Beira Alta, que trazia de Lisboa para a Madeira 20 toneladas de semilhas, além doutra carga.

Aportaram ao Funchal, nos primeiros dias do mês de Abril de 1918, os tripulantes de um veleiro português, que seguia o rumo dos Açores para Lisboa e que fora torpedeado por um submarino (…).

A 24 de Fevereiro de 1916 o decreto que autorizou a apreensão dos navios das nações inimigas surtos nos portos portugueses, encontrando-se então ancorados na baía do Funchal os vapores alemães Colmar, Petropolis, Guahyba e Hochfeld. Em virtude de ordens superiores, o capitão do nosso porto Sales Henriques, acompanhado do comandante da guarda fiscal tenente Leovegildo Rodrigues, procedeu no dia 2 de Março de 1916 à ocupação daquelas embarcações, tendo os respectivos tripulantes, em número de 100, deixando sem demora os seus navios.  Segundo declarações de alguns tripulantes o governo alemão mandou destruir e inutilizar várias peças dos maquinismos, obstando assim a que os navios pudessem navegar, a esses navios foram postos os nomes de Madeira, Porto Santo, Machico e Desertas (…).

O Diário do Governo de 14 de Abril de 1938 publicou uma relação de 62 pessoas residentes no Funchal, vítimas dos prejuízos causados por um submarino alemão, às quais se reconheceu o direito a certas indemnizações no valor total de 46.451$04”.

(continua)

domingo, 16 de maio de 2021

 

Conflitos das Autonomias da Madeira (31)

 A I Guerra Mundial pareceria estar premeditada a virar o ideal de conflitos armados anteriores. Mas a direção seguida pela guerra foi uma fatalidade na destruição de países e mortes no período de duração entre 1914 -1918.

Foi na presidência de Bernardino Machado, em agosto de 1914, que rebentou na Europa a Grande Guerra. Portugal, velho aliado da Inglaterra, entrou na guerra ao lado desta nação, da França e da Bélgica, contra a Alemanha e seus aliados. A paz só teve lugar quatro anos depois pelo armistício de 11 de novembro de 1918, ficando a Alemanha completamente derrotada. Quer nos campos da Flandres, quer em África, os soldados portugueses deram claras provas de bravura. Portugal participou no primeiro conflito mundial ao lado dos Aliados, o que estava de acordo com as orientações da República instaurada quatro anos antes.

Na primeira etapa do conflito, Portugal participou, militarmente, na guerra com o envio de tropas para a defesa das colónias africanas ameaçadas pela Alemanha. Face a este perigo e sem declaração de guerra, o governo português enviou contingentes militares para Angola e Moçambique. “Inicialmente, a Inglaterra insistiu na neutralidade do país português, com a condição de eventualmente realizar pedidos ao estado português para auxiliá-la na guerra. Em março de 1916, a Inglaterra decidiu pedir ao estado português o apresamento de todos os navios alemães e austro-húngaros presentes na costa lusitana. Esta atitude justificou a declaração oficial de guerra a Portugal pela Alemanha, em 9 de março de 1916 (apesar dos combates em África desde 1914). Em 1917, as primeiras tropas portuguesas, do Corpo Expedicionário Português, sob o comando de Tamagnini de Abreu, seguiam para a guerra na Europa, em direcção a Flandres. Portugal envolveu-se, depois, em combates em França. (…) Neste esforço de guerra, chegaram a estar mobilizados quase duzentos mil homens. As perdas atingiram quase dez mil mortos e milhares de feridos, além de custos económicos e sociais gravemente superiores à capacidade nacional. Os objectivos que levaram os responsáveis políticos portugueses a entrar na guerra saíram gorados na sua totalidade. A unidade nacional não seria conseguida por este meio e a instabilidade política acentuar-se-ia até à queda do regime democrático em 1926” (…) Nenhuma outra guerra mudou o mapa da Europa de forma tão dramática. Quatro impérios desapareceram após o fim do conflito: Alemão, o Austro-Húngaro, o Otomano e o Russo. Quatro dinastias, juntamente com as aristocracias que as apoiavam, caíram após a guerra: os Hohenzollern, os Habsburgos, os Romanov e os Otomanos. Países como a Bélgica e a Sérvia passaram por destruições severas, assim como a França, que perdeu 1,4 milhão de soldados, sem contar as vítimas civis. A Alemanha e Rússia foram igualmente afetadas (…) A guerra teve consequências econômicas profundas. Dos sessenta milhões de soldados europeus que foram mobilizados entre os anos de 1914 e 1918, oito milhões foram mortos, sete milhões foram incapacitados de maneira permanente e quinze milhões ficaram gravemente feridos. Morreram 6 milhões de civis durante a guerra. A Alemanha perdeu 15,1% de sua população masculina ativa, a Áustria-Hungria perdeu 17,1% e a França perdeu 10,5%”. (in wikipedia).

A Grande Guerra provocou na Madeira perdas humanas e materiais, incluindo bombardeamentos feitos por submarinos alemãs e afundamento de navios que transportavam mercadorias de e para a Madeira, como veremos no próximo texto.

(continua)